
Uma porta Aberta para a nossa Língua, para o conhecimento da palavra e das suas gentes.O saber escrever Português.
sábado, 15 de maio de 2010
"Os Cardos Morrem a Seu Tempo"

A escolha do Dia...
sexta-feira, 14 de maio de 2010
Livro da semana: Quem Não Adivinha Burro É!

Livro da semana: Quem Não Adivinha Burro É!
A assobiar corre
Como um furacão
Até faz tremer o chão
Mas é lindo a fumegar
A mãe ladra
O pai é ladrão
E os filhos
Para não perderem
Não fogem à geração
Adivinha adivinhar
Qual é a primeira coisa
Que se faz ao acordar
Estas são apenas algumas das muitas dezenas de advinhas que Quem Não Adivinha Burro É!, de Manuela Espírito Santo, hoje como livro da semana.
A ética de Kant

- texto integral
- análise e leitura orientada da obra
- contextualização do autor na sua época
- questões de exame nacional
- critérios de correcção
- tópicos de conteúdo
Age apenas segundo aquela máxima que possas ao mesmo tempo desejar que se torne lei universal.
No entanto, Kant deu igualmente outra formulação do imperativo categórico. Mais adiante, na mesma obra, afirmou que se pode considerar que o princípio moral essencial afirma o seguinte:
Age de tal forma que trates a humanidade, na tua pessoa ou na pessoa de outrem, sempre como um fim e nunca apenas como um meio.
Os estudiosos têm-se perguntado desde então por que razão pensava Kant que estas duas regras são equivalentes. Parecem exprimir concepções morais diferentes. Serão, como Kant pensava aparentemente, duas versões da mesma ideia básica, ou são simplesmente ideias diferentes? Não nos vamos deter nesta questão. Vamos, em vez disso, concentrar-nos na crença de Kant de que a moralidade exige que tratemos as pessoas «sempre como um fim e nunca apenas como um meio». O que significa exactamente isto, e que razão há para pensar que é verdade?
Quando Kant afirmou que o valor dos seres humanos «está acima de qualquer preço» não tinha em mente apenas um efeito retórico, mas sim um juízo objectivo sobre o lugar dos seres humanos na ordem das coisas. Há dois factos importantes sobre as pessoas que apoiam, do seu ponto de vista, este juízo.
Primeiro, uma vez que as pessoas têm desejos e objectivos, as outras coisas têm valor para elas em relação aos seus projectos. As meras «coisas» (e isto inclui os animais que não são humanos, considerados por Kant incapazes de desejos e objectivos conscientes) têm valor apenas como meios para fins, sendo os fins humanos que lhes dão valor. Assim, se quisermos tornar-nos melhores jogadores de xadrez, um manual de xadrez terá valor para nós; mas para lá de tais objectivos o livro não tem valor. Ou, se quisermos viajar, um carro terá valor para nós; mas além de tal desejo o carro não tem valor.
Segundo, e ainda mais importante, os seres humanos têm «um valor intrínseco, isto é, dignidade», porque são agentes racionais, ou seja, agentes livres com capacidade para tomar as suas próprias decisões, estabelecer os seus próprios objectivos e guiar a sua conduta pela razão. Uma vez que a lei moral é a lei da razão, os seres racionais são a encarnação da lei moral em si. A única forma de a bondade moral poder existir é as criaturas racionais apreenderem o que devem fazer e, agindo a partir de um sentido de dever, fazê-lo. Isto, pensava Kant, é a única coisa com «valor moral». Assim, se não existissem seres racionais a dimensão moral do mundo simplesmente desapareceria.
Não faz sentido, portanto, encarar os seres racionais apenas como um tipo de coisa valiosa entre outras. Eles são os seres para quem as meras «coisa» têm valor, e são os seres cujas acções conscientes têm valor moral. Kant conclui, pois, que o seu valor tem de ser absoluto, e não comparável com o valor de qualquer outra coisa.
Se o seu valor está «acima de qualquer preço», segue-se que os seres racionais têm de ser tratados «sempre como um fim e nunca apenas como um meio». Isto significa, a um nível muito superficial, que temos o dever estrito de beneficência relativamente às outras pessoas: temos de lutar para promover o seu bem-estar; temos de respeitar os seus direitos, evitar fazer-lhes mal, e, em geral, «empenhar-nos, tanto quanto possível, em promover a realização dos fins dos outros».
Mas a ideia de Kant tem também uma implicação um tanto ou quanto mais profunda. Os seres de que estamos a falar são racionais, e «tratá-los como fins em si» significa respeitar a sua racionalidade. Assim, nunca podemos manipular as pessoas, ou usá-las, para alcançar os nossos objectivos, por melhores que esses objectivos possam ser. Kant dá o seguinte exemplo, semelhante a outro que utiliza para ilustrar a primeira versão do seu imperativo categórico: suponha que precisa de dinheiro e quer um empréstimo, mas sabe que não será capaz de devolvê-lo. Em desespero, pondera fazer uma falsa promessa de pagamento de maneira a levar um amigo a emprestar-lhe o dinheiro. Poderá fazer isso? Talvez precise do dinheiro para um propósito meritório — tão bom, na verdade, que poderia convencer-se a si mesmo de que a mentira seria justificada. No entanto, se mentisse ao seu amigo, estaria apenas a manipulá-lo e a usá-lo «como um meio».
Por outro lado, como seria tratar o seu amigo «como um fim»? Suponha que dizia a verdade, que precisava do dinheiro para um certo objectivo mas não seria capaz de devolvê-lo. O seu amigo poderia, então, tomar uma decisão sobre o empréstimo. Poderia exercer os seus próprios poderes racionais, consultar os seus próprios valores e desejos, e fazer uma escolha livre e autónoma. Se decidisse de facto emprestar o dinheiro para o objectivo declarado, estaria a escolher fazer seu esse objectivo. Dessa forma, o leitor não estaria a usá-lo como um meio para alcançar o seu objectivo, pois seria agora igualmente o objectivo dele. É isto que Kant queria dizer quando afirmou que «os seres racionais […] têm sempre de ser estimados simultaneamente como fins, isto é, somente como seres que têm de poder conter em si a finalidade da acção».
A concepção kantiana da dignidade humana não é fácil de entender; é provavelmente a noção mais difícil discutida neste livro. Precisamos de encontrar uma forma de tornar a ideia mais clara. Para isso, analisaremos com algum detalhe uma das suas aplicações mais importantes. Isto pode ser bem melhor do que uma discussão teórica árida. Kant pensava que se tomarmos a sério a ideia da dignidade humana seremos capazes de entender a prática da punição de crimes de uma forma nova e reveladora. O resto deste capítulo será dedicado a um exame deste exemplo.
James Rachels
Tradução de F. J. Azevedo Gonçalves
Excerto retirado de Elementos de Filosofia Moral, de James Rachels (Lisboa: Gradiva, 2004)
História da filosofia
Aventurar-me nesta categoria, decerto que vou espevitar alguns leitores. Mas nada como enfrentar esta forma de ver o mundo a vida. Afinal a filosofia é a investigação crítica e racional dos princípios fundamentais relacionados ao mundo e ao homem.
História da filosofia
Não se inclui aqui materiais sobre, por exemplo, a ética de Kant; isso encontra-se na secção de ética. Aqui inclui-se unicamente estudos sobre figuras ou períodos históricos que não possam ser incluídos nas secções dedicadas a cada uma das disciplinas da filosofia.
XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
A filosofia contemporânea
Nesta nota, sem discutir obras individuais, irei limitar-me a indicar as linhas gerais do desenvolvimento filosófico ocorrido em décadas recentes. Por volta de 1960, poderíamos traçar o mapa do mundo da filosofia ocidental, sem um grau muito elevado de simplificação excessiva, por meio de um diagrama:
|
Existencialismo |
Filosofia analítica |
|
Marxismo |
Escolástica |
Podemos representar a situação tomando um quadrado e dividindo-o em quatro quadrantes. No canto superior esquerdo colocamos o existencialismo, nessa altura muito em voga na parte ocidental da Europa continental; no canto superior direito, colocamos a tradição analítica, que dominava os países de língua inglesa em ambos os lados do Atlântico. No canto inferior esquerdo, colocamos o marxismo, que era então a filosofia oficial da Europa de leste e da China; no canto inferior direito colocamos a filosofia escolástica, que era ensinada em todo o mundo nos seminários e universidades da Igreja Católica Romana.
A localização destes quadrantes no quadrado representa as características que aproximavam e separavam estas filosofias entre si. As filosofias da parte superior do diagrama partilhavam entre si uma preocupação pela autonomia intelectual e moral do indivíduo: a filosofia não era um conjunto de doutrinas autoritárias, mas um método de pensar (análise) ou um estilo de vida (existencialismo). As filosofias da parte inferior estavam, ambas, conectadas a instituições cujo propósito primário é não filosófico, e partilhavam a convicção de que as verdades filosóficas mais importantes foram estabelecidas de uma vez por todas, de modo que não podemos senão expô-las, mas nunca colocá-las seriamente em questão. As filosofia do lado direito do diagrama eram semelhantes no seu interesse no exame de minúcias puramente teóricas e nos laços estreitos que mantinham com sistemas de lógica formal. As do lado esquerdo tinham orgulho no seu comprometimento prático com as realidades básicas da experiência, trabalho, poder, amor e morte humanas; nenhuma delas contribuiu significativamente para o desenvolvimento dos aspectos matemáticos da lógica.
Nos anos 60 estes blocos filosóficos começaram a desagregar-se, a abrir fendas e a mudar. O segundo Concílio do Vaticano, inaugurado em 1962, conduziu a um período de liberalização na Igreja Católica Romana; no decurso disto, a neo-escolástica perdeu grande parte do seu estatuto canónico nas instituições de ensino superior da Igreja, e por volta da década seguinte era provável que os professores de um seminário fossem tão versados no existencialismo como no tomismo. Mas, ao mesmo tempo, o existencialismo clássico estava a perder o seu poder onde tinha antes dominado: a influência de Heidegger entrou em sério declínio, e o próprio Sartre, nas últimas décadas da sua vida, estava mais interessado no marxismo do que nos temas das suas anteriores batalhas contra o essencialismo.
Ao passo que nos anos 50 e 60 o Canal da Mancha tinha determinado uma barreira quase impenetrável entre a filosofia anglo-americana e a filosofia continental, por volta dos anos 70 começaram a aparecer muitas ligações de cruzamento cultural. A Alemanha, a Itália e (depois da morte de Franco) a Espanha tornaram-se receptivas aos métodos analíticos em filosofia, ao mesmo tempo que ideias filosóficas engendradas em França encontraram grande receptividade na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos da América, apesar de isto acontecer ser mais comum nos departamentos de literatura do que de filosofia.
Na Alemanha, por exemplo, nos finais dos anos 60, em algumas das principais universidades as influências dominantes eram a filosofia analítica (que tinha hábeis evangelistas entre alguns dos mais sofisticados docentes) e a filosofia marxista (que tinha expoentes orais entre alguns dos mais enérgicos dirigentes estudantis). A escola de pensamento mais próxima do existencialismo alemão que conseguiu sobreviver foi a hermenêutica, que fez da natureza da compreensão o seu tema central de estudo; a natureza da compreensão em geral, especialmente a compreensão das obras literárias, e em particular a compreensão das obras filosóficas das várias tradições.
A escola hermenêutica na Alemanha operou de um modo conciliador, tomando a actividade inevitavelmente fluente e flexível de interpretação de textos como um modelo geral para a compreensão das diferentes actividades e instituições humanas. Em França, alguns pensadores com um espírito mais combativo aproveitaram a ideia de que o mundo é todo ele um texto e tornaram-na o grito de guerra de uma cruzada iconoclasta.
A cruzada foi levada a cabo em nome do estruturalismo. Como método, o estruturalismo convida-nos a pressupor, com respeito a uma dada estrutura, que a inter-relação entre os seus elementos é mais importante do que qualquer relação entre um elemento individual e qualquer item exterior à estrutura. O estruturalismo, enquanto teoria de um dado campo de estudo, é a tese de que o método estruturalista é a chave para a compreensão desse campo. Assim, com respeito à linguagem, é a tese de que se queremos compreender o significado, temos de estudar as inter-relações entre os elementos significantes do interior da linguagem, em vez de olhar para uma relação entre qualquer significante e o que isso significa.
O pós-estruturalismo levou as teses estruturalistas a posições extremas e na verdade auto-refutantes. Para compreendermos um texto temos de excluir rigorosamente todos os elementos extra-textuais. Isto significa não apenas o abandono da procura de qualquer realidade exterior representada pelo texto, mas também deixar de encarar o texto como a expressão do pensamento de um autor extra-textual. É o leitor que desempenha a parte de leão na produção do significado; mas dado que cada leitor interpreta qualquer texto de maneira diferente, nunca emerge qualquer significado definitivo, e assim cada texto destrói a sua própria pretensão de significar seja o que for.
Houve várias formas ou facções no pós-estruturalismo francês. Cada escola brilhou brevemente com um brilho magnético, atraindo uma multidão volúvel de devotos antes de se extinguir quando uma versão rival começa a brilhar mais sedutoramente. Todos estes grupos reivindicaram descender de expoentes distintos da teoria linguística como Saussure e Jakobson, e nesse sentido os seus membros podem classificar-se como filósofos linguísticos. Mas encontram-se no pólo oposto relativamente ao estilo de filosofia que desde cedo se encarou como filosofia linguística por excelência, a tradição analítica anglo-americana.
Também a filosofia analítica mudou imensamente desde o simples diagrama dos anos 60. As mudanças mais óbvias foram um declínio na sua auto-confiança e uma mudança no seu centro gravitacional. Em 1960 Oxford era o centro inquestionável do movimento analítico, e os filósofos vinham dos Estados Unidos para se sentarem aos pés dos filósofos de Oxford. Os partidários da filosofia analítica orgulhavam-se de serem os herdeiros de dois filósofos de indubitável génio: Russell e Wittgenstein. Achavam que a sua tarefa era explorar este feliz legado e partilhá-lo com o resto do mundo filosófico. Nas décadas que se seguiram aos anos 60 a liderança do movimento analítico mudou-se definitivamente para o outro lado do Atlântico, apesar de nenhuma universidade americana ter, só por si, herdado o papel dominante de que Oxford gozou. A tradição de Russell e Wittgenstein já não obrigam ao respeito geral; mas entretanto não emergiu outro génio como sucessor de uma estima idêntica e incontestada. Ninguém foi bem sucedido em redefinir a natureza da filosofia, como Russell e Wittgenstein fizeram, ao colocarem o estudo da linguagem no centro da filosofia, e convencendo os seus partidários de que a tarefa da filosofia era o estudo da linguagem que usamos para exprimir os nossos pensamentos, e tornar esses pensamentos claros resolvendo as confusões da linguagem que usamos para os exprimir.
Consequentemente, a filosofia anglo-americana não apresenta já nem tão-pouco a aparência de uma escola unificada. A tradição continua a ser linguística, no sentido em que não faltam filósofos que oferecem teorias da linguagem. Mas as teorias da linguagem correntemente mais em voga estão muito longe da filosofia da linguagem apresentada por filósofos como Frege e Wittgenstein, e por essa razão são amargamente criticados por quem luta para preservar as ideias dos fundadores da tradição analítica.
Tanto Frege como Wittgenstein faziam uma distinção profunda entre filosofia e psicologia. Para Frege, a lógica, que estava no coração da filosofia, era uma ciência a priori muito diferente de uma ciência empírica como a psicologia; para Wittgenstein, a filosofia diferia da psicologia porque não era de maneira alguma um tipo de ciência, fosse ela empírica ou a priori. Os filósofos de Oxford dos anos 50 seguiram Wittgenstein neste aspecto; e os seus colegas psicólogos, muito mais interessados nessa altura no comportamento dos animais do que na linguagem humana, tinham todo o gosto em concordar que um hiato profundo separava as duas disciplinas.
Em contraste com isto, os filósofos americanos, a partir do momento em que empunharam a tocha da tradição analítica, têm tido tendência para ver a filosofia como uma disciplina científica com técnicas especiais rigorosas próprias, e não como uma demanda informal pela compreensão, demanda fundada na reflexão sobre as actividades não académicas das pessoas comuns. A filosofia da mente, em especial, é hoje muitas vezes vista como algo cuja tarefa é a construção de um modelo da mente que o estudante de inteligência artificial possa ter como objectivo criar. Depositam-se grandes esperanças numa nova disciplina chamada «ciências cognitivas», que irá combinar as capacidades conceptuais do filósofo, a capacidade para construir modelos do especialista em inteligência artificial e as descobertas empíricas do psicólogo experimental. Estas esperanças espalharam-se através do Atlântico, chegando à Grã-Bretanha e à própria universidade de Oxford.
Este desenvolvimento, apesar de ter sido promovido por filósofos formados na tradição analítica, reverte na verdade a viragem linguística que dava a essa tradição o seu carácter definitório. Da primeira denúncia de Frege do psicologismo na lógica, passando pelos escritos do Wittgenstein mais jovem e mais maduro, até à filosofia da linguagem corrente de Oxford e à sua recepção nos Estados Unidos, todos aceitavam que a maneira de compreender o pensamento era reflectir sobre a linguagem. Era uma convicção comum que os pensamentos só podem identificar-se e individuar-se através da sua expressão na linguagem, e que uma estrutura do pensamento acessível independentemente da estrutura da linguagem era coisa que não existia. As aspirações dos cientistas cognitivos vão claramente contra este princípio fundamental da filosofia da análise linguística. A esperança da nova disciplina é explicar a linguagem relacionando-a com estruturas mentais que já podem em princípio, e que no futuro poderão na prática, ser investigadas independentemente de qualquer expressão linguística.
Ao mesmo tempo que ocorria esta mudança dramática de direcção na filosofia anglo-americana da linguagem, houve um desenvolvimento também surpreendente no seio da filosofia moral e política analítica. No auge do movimento analítico era popular pensar que havia uma distinção marcada entre a ética e a moral. A moral consistia em questões de primeira ordem sobre como nos devemos comportar, questões como a de saber se mentir era em algumas circunstâncias permissível, ou se o objectivo de acabar com uma guerra justificava que se bombardeassem cidades. Este tipo de questões e as suas respostas pertenciam à disciplina moral de primeira ordem. Não era claro quem tinha a tarefa de responder a estas questões, mas qualquer filósofo de Oxford dos anos 50 lhe teria dito que certamente não era tarefa do filósofo. O filósofo fazia algo bastante diferente, a que chamava «ética»; e isso era um estudo de segunda ordem dos conceitos que usamos ao formular e responder a questões de primeira ordem, e a relação entre o filósofo e o moralista não era mais próxima do que a relação entre o mecânico e quem conduz o carro.
Tudo isto mudou também entre os anos 50 e os anos 80. Nos países de língua inglesa encara-se agora como perfeitamente apropriado que os filósofos usem as suas próprias aptidões profissionais para fazer propostas específicas para a reforma de questões públicas, ou denúncias específicas de políticas e administrações. Os filósofos passaram a demonstrar um grande interesse em questões de primeira ordem sobre os direitos das mulheres ou sobre os males da guerra nuclear de um modo que costumava encarar-se como algo que caía mais no âmbito do político ou do clérigo do que no do filósofo profissional.
A filosofia analítica já não é, pois, se é que alguma vez foi, uma unidade homogénea. A própria concepção de filosofia tornou-se mais vaga e mais aberta nas suas margens. Isto acarreta outra consequência, que é sobretudo relevante para o presente trabalho: a filosofia no mundo de língua inglesa mudou a sua atitude relativamente à sua própria história. Nas eras das cruzadas auto-confiantes, tal como a que marcou o auge da filosofia da linguagem corrente, a história da filosofia tinha tendência a ser negligenciada. Uma era revolucionária não perde tempo a dissecar as minúcias que preocuparam o antigo regime; proclama a verdade acabada de descobrir que era na melhor das hipóteses ignorantemente venerada pelos seus predecessores. As fracturas e a fragmentação do monólito analítico conduziram a um interesse renovado na história da filosofia. Um exemplo particularmente impressionante é o renascimento recente dos estudos medievais: a filosofia medieval, que antes tinha sido uma serva ou uma ama da teologia, unicamente ensinada em seminários, é agora ensinada com proficiência em universidades seculares como um elemento significativo do legado filosófico. Surpreendentemente, até o argumento ontológico a favor da existência de Deus, encarado nos anos 50 a arma mais desacreditada do arsenal filosófico, foi renovado com modernos e sofisticados dispositivos acessórios, voltando a ser usado no campo de batalha contemporâneo da teologia filosófica.
Podemos regressar, pela última vez, ao nosso diagrama inicial para seguir brevemente o curso recente da filosofia marxista. Nos anos 50, o marxismo, como a escolástica, devia o seu lugar nas instituições académicas a organizações cujos objectivos primários não eram filosóficos; e, como a escolástica, estava à mercê de mudanças não académicas nessas organizações. Mas para o marxismo, ao contrário da escolástica, os anos 60 foram uma década de expansão, e muitos filósofos ocidentais adoptaram abordagens marxistas, apesar de os seus interesses terem tendência para se concentrar nas obras do jovem Marx e não em Das Kapital. Ao mesmo tempo, a desilusão com a natureza corrupta e despótica dos regimes marxistas tornou os estudantes de filosofia dos países do bloco de leste cínicos quanto ao valor da filosofia oficial que subjazia a esses países. Nos anos 70, paradoxalmente, no leste o marxismo era universalmente ensinado e quase universalmente ninguém acreditava nele, ao passo que no ocidente o marxismo era ensinado, ainda que a uma minoria, mas a uma audiência de crentes apaixonados. Hoje em dia, claro, em resultado da dissolução do Império Soviético e da libertação dos satélites soviéticos, o apoio institucional da filosofia marxista na Europa de leste esboroou-se quase completamente. A sobrevivência da filosofia marxista depende necessariamente dos esforços dos seus devotos nas universidades ocidentais.
As grandes ideias filosóficas podem permear todos os aspectos do pensamento e das actividades humanas; mas levam muito tempo a fazê-lo, e é necessário ainda mais tempo para que a sua influência possa ser avaliada como saudável ou deletéria. As filosofias da segunda metade do século XX estão demasiado próximas para que possamos fazer um juízo definitivo sobre elas, ainda que se consiga perceber que algumas delas são efémeras.
Qualquer leitor que tenha perseverado na leitura deste livro terá sido surpreendido pelo facto de que mesmo os maiores filósofos do passado propuseram doutrinas que podemos ver — graças à compreensão retrospectiva dos outros grandes filósofos que estão entre eles e nós — que estão profundamente erradas. Isto não deve ser encarado como algo que reflecte o génio dos nossos grandes predecessores, mas como uma indicação da extrema dificuldade da disciplina. A ambição da filosofia é alcançar um tipo de verdade que transcende o que é meramente local e temporal; mas nem mesmo o maior dos filósofos chegou perto de alcançar esse objectivo de um modo abrangente. Há uma tentação constante para minimizar a dificuldade da filosofia redefinindo a disciplina de maneira a que o seu objectivo pareça mais tangível. Mas nós, filósofos, temos de resistir a esta tentação; devemos combinar o orgulho sem-vergonha na elevação do nosso objectivo com a modéstia indisfarçada quanto à pobreza dos resultados.
Este pensamento foi muito bem expresso pelo filósofo americano Thomas Nagel, na sua brilhante sinopse da filosofia, The View From Nowhere:
Mesmo os que acham que a filosofia é uma coisa real e importante sabem que estão num estádio particular e inicial, esperemos, do seu desenvolvimento, limitados pelas suas próprias primitivas capacidades intelectuais, e baseando-se nas ideias parcelares de um punhado de grandes figuras do passado. Tal como pensamos que os seus resultados estão fundamentalmente errados, temos também de presumir que mesmo os melhores esforços do nosso próprio tempo acabarão por parecer cegos.
Anthony Kenny
Texto retirado de The Oxford Illustrated History of Western Philosophy, org. por Anthony Kenny (Oxford University Press, 1994, pp. 363-369)
100 FILÓSOFOS DO SÉCULO XX

Ano: 2002
Paginas:280
De Adorno a Zhang Binglin, este livro fornece uma análise crítica das vidas, obras e influências das figuras mais importantes da filosofia neste século.Cada entrada contém:- Factos biográficos: nascimento, morte, educação, cargos;- Uma apreciação dos pensamentos e realizações do filósofo; - Uma lista dos seus principais trabalhos; - As melhores fontes para escrever sobre eles. Os filósofos presentes provêm das tradições analítica e continental e foram escolhidos pelo seu amplo impacto no pensamento do século XX, apelando a leitores de outras disciplinas. Um glossário separado cobre as origens, desenvolvimentos e principais características dos grandes movimentos e escolas filosóficas.STUART BROWN, DIANÉ COLLINSON e ROBERT WILKINSON são membros do Departamento de Filosofia da Open University no Reino Unido.
No nosso país ignora-se grande parte da melhor filosofia do século XX — o mais rico da história da filosofia. Esta obra é por isso interessante para o público português, apesar das suas limitações. Trata-se de um dicionário que descreve brevemente (em 2 ou 3 páginas) as ideias de 100 filósofos do século XX. A maioria dos artigos é relativamente vaga e pouco rigorosa. Os organizadores escolheram um conjunto fraco de autores — com algumas excepções, como Anthony Ellis, A. R. Lacey e Anthony Quinton. É pena que o editor português tenha escolhido esta obra em particular quando tantas há de muito superior qualidade. Acresce que a edição portuguesa não é boa. Onde se devia ler "tema" lê-se "sujeito matéria" (que presumo ser "subject matter"), onde devia estar "teoria da demonstração" está "teoria das provas", o que presumo ser "ingenuity" aparece publicado como "ingenuidade" quando devia ser "engenho" ou "perspicácia", e "deception" surge como "decepção" em vez de "engano". Além disso, muitas das frases em português mantêm a estrutura sintáctica inglesa pelo que são quase incompreensíveis.
Mas vale a pena usá-lo como obra de consulta pela informação que contém. Os artigos apresentam uma lista das obras mais significativas do autor e sobre o autor em causa. Assim, o leitor português que desconhece as ideias dos mais importantes filósofos do século XX tem agora uma obra de consulta como ponto de partida para organizar as suas leituras. Poderá assim descobrir a riqueza de filósofos como Michael Dummett, Saul Kripke, Robert Nozick, Gottlob Frege, A. N. Chomsky, David Lewis, Carl Hempel, R. M. Hare, Nelson Goodman, Kurt Gödel, Peter Geach, Donald Davidson, e muitos outros. O dicionário tem a vantagem de ser muito inclusivo, contemplando pensadores orientais (do século XX, claro) e figuras como Heidegger, Lenine, Nietzsche, Unamuno, Derrida, Foucault, etc. Às 238 páginas dedicadas a filósofos e pensadores seguem-se 35 páginas dedicadas a escolas e movimentos filosóficos; uma vez mais, os artigos são muitas vezes caricaturais, valendo a informação bibliográfica disponibilizada, apesar de nem sempre ser a mais adequada.
terça-feira, 11 de maio de 2010
A Filosofia para Crianças

A Filosofia para Crianças
Apresentação
... fazer filosofia não é uma questão de idades,
mas de habilidades em reflectir escrupulosamente
e corajosamente sobre o que se considera importante.
Mathew Lipman
A Filosofia para Crianças é um programa pedagógico que visa desenvolver as capacidades de raciocínio e do pensamento em geral, assim como as capacidades de verbalização do pensamento e aspectos cruciais da construção da comunicação, como o confronto de ideias e a reflexão em grupo. Esta aprendizagem multifacetada da actividade do pensar é feita através da criação de um diálogo, tem como fim promover o pensamento através de uma comunidade de investigação na sala de aula, onde as crianças são encorajadas a falar e a ouvir-se umas às outras e assim discutir ideias filosóficas na presença de um facilitador. O objectivo pedagógico não é o de informar as crianças da existência dos filósofos, das suas ideias e obras mas antes, contribuir para o desenvolvimento e compreensão da linguagem e das capacidades criticas e criativas das crianças de modo a promover o seu pensamento autónomo.
A Filosofia para Crianças foi originalmente desenvolvida por Matthew Lipman e Anne Sharp nos Estados Unidos da América no fim dos anos sessenta. Ao dar aulas na universidade de Columbia, Matthew Lipman apercebeu-se que os seus alunos não tinham adquirido a capacidade de pensar por si próprios. Lipman concluiu que era preciso fornecer aos alunos modos de desenvolver a capacidade de pensar antes dos alunos chegarem ao nível universitário. Podemos identificar como influencias teóricas de Lipman a tradição filosófica no seu conjunto começando pelo método socrático e a forma de diálogo das obras platónicas, e mais especificamente a tradição pragmatista que realça a importância da investigação em comunidade e da importância do processo de conhecimento. Encontramos também entre os autores que influenciaram Lipamn o psicólogo russo, Lev Vygotskii, que defendia que aprendemos a pensar tal como aprendemos a falar, ao internalizar os padrões linguísticos e de reflexão à nossa volta. Consequentemente Lipman desenha o seu programa considerando que já que pensar é, até certo ponto, assimilar a linguagem dos outros que nos rodeiam para aprender a falar connosco próprios, é necessário cuidar atentamente desse processo de aprendizagem. Um dos aspectos que Lipman dá extrema importância são os processo de questionamento no desenvolvimento das capacidades de raciocínio.
A partir desta visão sobre a educação do pensar, Lipman criou um modelo pedagógico baseado no conceito de comunidade de investigação onde tanto os alunos como o professor colaboram uns com os outros na reflexão sobre o mundo que os rodeia.
Assim, Filosofia para Crianças da metologia Lipman assenta em promover:
1) a pergunta como modo de abrir, problematizar e construir saberes;
2) a investigação criativa como modo de pensar nossa realidade individual e social;
3) o debate participativo, aberto e fundamentado como prática de conhecimento;
4) a democracia como forma de respeitar e valorizar nossas diferenças;
5) o trabalho solidário e colaborativo como modo de agir em educação;
e 6) a resistência crítica frente a toda forma de imposição.
O estudo sobre o efeito do programa Filosofia para Crianças feito nos Estados Unidos da América nos anos 80 mostrou que as crianças não só melhoravam as suas capacidades de raciocínio mas também que os participantes aumentavam as suas capacidades de leitura e as capacidades matemáticas. Além disso, os professores que trabalham com a metodologia testemunham frequentemente que a Filosofia para Crianças é um momento da sala de aula que permite um espaço onde se promove a auto-estima e a capacidade de comunicação em geral.
Desde dos anos 80 que a Filosofia para Crianças se espalhou pelo mundo inteiro, sendo a metodologia utilizada numa grande variedade de contextos, e muitos dos países começaram a desenvolver o seu próprio material para as sessões. Formou-se assim uma comunidade internacional que partilha o modo como aplica a metodologia, ao mesmo tempo que reflecte sobre os seus aspectos teóricos e o seu impacto nas ideias pedagógicas das ciências da educação. Ainda que diferentes países tenham começado a divergir no uso de material para dinamizar as sessões, todos mantêm em geral os princípios da comunidade de investigação tal como Lipman os desenhou.
Assim, pode-se dizer que em todo o mundo em que se implementa a Filosofia para Crianças se procura dinamizar uma comunidade de investigação de modo a que:
1) se pratique fazer perguntas e explicá-las;
2) se aprenda a ouvir as perguntas e comentários dos outros participantes;
3) se aprenda a identificar contradições, consequências e coerências das ideias expostas;
4) que se aprenda a saber enunciar o tipo de intervenção que se faz no diálogo (estou a dar um exemplo, a concordar, etc.);
5) que se saiba concretizar o que se diz através de um exemplo e se cultive a procura de contra-exemplos;
6) que se aprenda a fazer relações entre ideias (de sessão para sessão, e de uns participantes para outros);
e finalmente 7) que se pratique respeitar a diferença sem indiferença.
O que acontece na sessão de Filosofia para Crianças
A partir da leitura de uma pequena história as crianças colocam perguntas para serem discutidas. Estabelece-se então um diálogo a partir das várias opiniões que cresce no procurar de exemplos, na descoberta de relações de ideias, na criação de novas questões. Desde modo, as crianças encontram um espaço para dar voz aos seus pensamentos, às suas interrogações, ao mesmo tempo que aprendem a ouvir-se umas às outras.
A sessão começa normalmente com a leitura de uma história filosófica, ou um pequeno episódio de uma história filosófica. Estas histórias foram escritas de modo a suscitar perguntas sobre temas filosóficos e muitas vezes as personagens são crianças que fazem perguntas e conversam sobre esses mesmos assuntos filosóficos.
De seguida os participantes da sessão colocam perguntas sobre a história. As perguntas são escritas de modo a serem visíveis para todos os participantes. Normalmente esta parte da sessão termina porque já não há mais espaço para escrever perguntas e não porque não haja mais perguntas. Depois, lêem-se as perguntas e começa-se a organiza-las agrupando as que se relacionam e construindo uma ordem de prioridade à medida que se analisa o que a pergunta está a pedir.
Com a conversa sobre as perguntas acaba-se por escolher uma primeira pergunta para reflectir em conjunto. Aí a reflexão em grupo começa por pedir à pessoa que colocou a pergunta que explique porque é que teve aquela pergunta e o que acha que pode fazer com a possível resposta. Rapidamente os outros membros da comunidade começam a sugerir possíveis respostas para a pergunta. O papel do facilitador aqui aparece como crucial porque é da sua responsabilidade apontar contradições que apareçam na conversa assim como ajudar a aprofundar o dialogo entre os participantes. Por exemplo, numa sessão com uma sala da Infantil uma participante começou a sessão dizendo que achava que não havia magia e depois de muito conversa, acabou por afirmar que conhecia um mágico que era o seu pai. Neste momento o facilitador deve perguntar-lhe se ela continua a afirmar que não há magia, já que acaba de dizer que o seu pai é mágico. É frequente, com a pratica das sessões, os participantes ajudarem-se uns aos outros a pensar e por isso é natural que, como aconteceu nessa sessão, uma Mariana venha explicar que o pai da Rita é um magico especial e diferente, abrindo assim a conversa para a possibilidade de existirem vários significados para o conceito de magia.
A sessão acaba frequentemente porque o tempo da Filosofia terminou. Antes de dar final à sessão é importante fazer um resumo do que aconteceu na sessão apontando para uma possível sessão de continuidade temática se necessário. O ponto final da sessão é dado ao pedir à pessoa que colocou a pergunta e provocou a reflexão, que retorne à sua pergunta fazendo uma avaliação do modo como a conversa contribuiu ou não para a sua resposta.
Uma das partes importantes da Filosofia para Crianças são as histórias que servem como estímulos das sessões. No entanto o material de trabalho não oferece uma conversa "filosófica" sem que se cultive a construção de uma comunidade de investigação onde se cria hipóteses explicativas, se clarifica vocabulário, se pede e oferece razões, se dá exemplos de contra-exemplos, se questiona sobre o que está na base dos comentários dos outros participantes, onde se procure fazer inferências e seguindo o caminho da discussão de modo declaradamente social. Os participantes têm que partilhar as suas diferentes perspectives sem se acomodarem simplesmente ao facto de aceitarem que existem opiniões diferentes mas procurando ouvir-se uns aos outros, compreender as suas discórdias, desafiando-se uns aos outros apontando falhas de raciocínio e reconstruindo as suas próprias ideias face ao diálogo. Com a metodologia Lipman, o cultivo do pensamento critico não é um exercício vazio, mas uma pratica feita de forma viva e contextualizada.
O objectivo final das sessões de filosofia não é o de encontrar respostas conclusivas e finais para as perguntas levantadas, nem o de alcançar um consenso confortável entre os membros da comunidade. As sessões guiam-se por duas linhas condutoras: por um lado aprender a conviver com as perguntas filosóficas (clarificando as questões, revendo crenças, levantando novas hipóteses para futuras verificações, etc.) e, por outro lado, desenvolver as capacidades cognitivas e sociais que o processo de reflexão exige.
As Vantagens da Filosofia para Crianças
A descrição do programa Filosofia para Crianças já aponta para as suas inúmeras virtudes pedagógicas. É importante referir que, como afirmava John Dewey, uma das maiores falácias da educação é a convicção de que só se está a ensinar aquilo que nos dedicamos a ensinar. Na verdade estamos sempre a ensinar indirectamente inúmeras outras coisas. Assim embora vá apontar uma série de vantagens do programa Filosofia para Crianças penso que, tal como dizia Randolf Pausch, não enviamos os nossos filhos para aulas de ginástica porque queremos que saibam o desporto. Claro, é também por isso mas sobretudo porque aprendem outras coisas fundamentais como: trabalho de equipa, perseverança, lidar com os desafios e com os erros, lidar com as vitorias perante outros que gostamos, etc. A Filosofia para Crianças não foi desenhada para que todos os meninos se tornem filósofos mas para que tenham um espaço para aprender a reflectir em conjunto.
O programa oferece um espaço e modo de aprender a ouvir os outros, de praticar a continua aprendizagem de verbalizar o pensamento ao promover modos de ultrapassar confusões e ambiguidades, ao promover a expressão das convicções dos participantes de modo a torna-las explicitas (ou mais explicitas), permitindo um espaço para descobrir o prazer de brincar com ideias e conceitos, assim como aprender a identificar várias perspectivas sem cair no relativismo de opiniões (oferecendo um espaço onde se pode mudar de opinião à luz de novas razões e discussão sobre a sua validade) o que ajuda a ganhar autonomia de pensamento e a desenvolver capacidades para reflectir sobre questões éticas e sociais, como a identificação de critérios de juízos, identificação da relevância ou não dos detalhes contextuais, etc. Ao desenvolver a capacidade de concordar ou discordar, de pensar com os outros e de descobrir a reflexão cooperativa, os participantes intensificam a sua identidade permitindo um crescimento saudável da auto-estima, ao mesmo tempo que descobrem relações entre pensar, falar e fazer. Como um todo, a Filosofia para Crianças como foi desenvolvida por Lipman, com as seus utensílios pedagógicos (metodologia e material), aumenta a capacidade de leitura e compreensão de assuntos ao dar à escola um local onde os alunos podem reflectir sobre problemáticas que lhes enchem os dias.
Termino este pequeno elogio à metodologia descrevendo o modo como possibilita desenvolver a capacidade interrogativa. Sem dúvida cada uma das qualidades acima referida poderia ser alvo de uma descrição mais detalhada. No entanto a actividade de bem questionar é por excelência uma virtude filosófica que se revela na prática como uma das contribuições decisivas e importantes da Filosofia para Crianças. Temos tendência a pensar que perguntar vem com a capacidade natural de querer saber mais coisas. Por isso não encontramos na escolaridade em geral nenhum momento, espaço ou reflexão para treinar o fazer perguntas e perceber as perguntas. A Filosofia para Crianças mostra que fazer perguntas ao longo de um ano lectivo nos ajuda a melhor formular as nossas perguntas tornando-as mais incisivas, mais pertinentes, mais claras e mais dialogantes. Nas sessões os participantes têm oportunidade de aprender que para perceber a pergunta de outra pessoa por vezes não é suficiente ler a pergunta mas é necessário procurar o que provocou a pergunta e que direcção quem a fez lhe deu. Porque muitas vezes uma sessão roda exclusivamente à volta de uma pergunta que foi colocada por um dos participantes estes aprendem a reconhecer que para além da resposta existe a problematização e compreensão da complexidade que rodeia as perguntas.
Algumas perguntas sobre a metodologia (e algumas respostas demasiado curtas)
Quem deve ensinar Filosofia para Crianças?
Uma das questões que se levanta com frequência é saber quem deve ensinar Filosofia para Crianças. Se devem só ser pessoas com formação filosófica ou se devem ser os próprios professores da sala. Não irei elaborar sobre o que está por detrás desta difícil discussão. Basta dizer que quem o fizer deverá ter uma formação específica que lhe permita conhecer o programa metodológico pois o papel de facilitador requer uma formação cuidada que oriente a pratica das discussões.
Estamos a ensinar o que devem pensar?
A filosofia para Crianças não diz aos participantes o que devem pensar sobre os assuntos que aparecem para ser discutidos a partir de perguntas. Os temas são abertos e existem uma série de mecanismos usados pelo facilitador para aprofundar o tema em discussão, Mas a filosofia para Crianças não contempla nenhum momento para “ensinar” os conceitos e a tradição filosófica como se ensina os países em geografia.
Vão tornar-se pessoas mais responsáveis?
Muitas vezes me perguntam isto e sei que em parte o programa se apresenta como tendo uma vertente democrática e social que aumenta o saber estar em grupo. E dado que alguns dos assuntos que aparecem nas histórias são de teor ético e moral, os participantes de uma comunidade de investigação irão muitas vezes reflectir sobre questões éticas. E seria mesmo excelente para o programa pedagógico que se pudesse dizer que essa pratica os fará necessariamente cidadãos mais éticos e responsáveis. Mas a única coisa que podemos dizer é que tal como grande parte da aposta da escolaridade, a Filosofia para Crianças aponta nesse caminho mas não o pode garantir. No entanto podemos afirmar com segurança que é mais fácil saber pensar quando nos foi dado espaço e oportunidade para experimentar pensar aprendendo os passos fundamentais de uma reflexão cuidada.
Existem outras metodologias?
No seguimento da espantosa disseminação da metodologia Lipman apareceram outros autores que escreveram outros livros a que chamaram Filosofia para Crianças. Que seja do meu conhecimento nenhuma desses autores desenhou, como Lipman, uma metodologia pratica que acompanhe a "literatura filosófica". Assim, embora seja sempre de salutar toda o material pedagógico que alimente a capacidade de pensar e reflectir, não existem outras metodologias explicitamente organizadas que requeiram, como a metodologia Lipman, uma familiarização e treino por parte dos educadores.
Colaboração da Sociedade Portuguesa de Filosofia com o Portal da Criança.
Recursos de Internet de Interesse:
Site da Sociedade Portuguesa de Filosofia
http://www.spfil.pt/cpfc/index.htm
Institute for the Advancement of Philosophy for Children
http://cehs.montclair.edu/academic/iapc/whatis.shtml#what
Filosofia para Crianças à volta do Mundo
http://cehs.montclair.edu/academic/iapc/world.shtml#world
Childhood and Philosophy. A Journal of the International Council of Philosophical Inquiry with Children
http://www.filoeduc.org/childphilo/
Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade

Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade |
| José Fanha [org.] • José Jorge Letria [org.] |
|
|
| Aqui se juntam cem sonetos escolhidos com o intuito de ilustrar essa arte, que o tempo não fez prescrever nem colocou irremediavelmente fora de moda, e que mergulha as suas raízes na nossa melhor tradição lírica, ou seja, no caudal de sons e de sentidos onde a mais sólida poesia contemporânea vai beber os elementos estruturantes da sua identidade.
José Fanha, arquitecto de formação, mas não de prática. Fugiu-lhe o jeito para outras paragens: a poesia, a literatura, o teatro e a televisão – com especial pendor para a infância. Mas tem-se dedicado a bem diversificadas actividades: a formação de professores do ensino secundário, a concepção de guiões para televisão e cinema, a adaptação de textos teatrais. Acima de tudo, continua a considerar-se poeta e declamador.
José Jorge Letria, foi cantor, músico e poeta – quando ser tudo isto era lutar pela liberdade, lado a lado com Zeca Afonso, José Fanha e outros artistas do «canto livre». Continua a ser poeta e escritor, dirigindo-se principalmente às crianças e aos jovens. Mas não só: também para adultos, tem escrito poemas, romances e peças de teatro. São já trinta anos de intensa vida literária, cuja qualidade lhe tem sido reconhecida por inúmeros prémios que já recebeu.
|
|
Colecção: Poesia |